Caros colegas,

vejam esta notícia sobre uma das decisões do Comitê de Combate ao Crack e à Prostituição Infantil, criado pelo governo municipal do Rio de Janeiro. Isto está me cheirando a violação de direitos e abuso, em nome do tratamento da dependência de drogas.

Força-tarefa tenta evitar que viciados em crise deixem abrigos
Jornal do Brasil

Como estas crianças e adolescentes estão sendo "tratadas" nesses abrigos? Há algum acompanhamento médico ou psicológico para realmente tratá-los, durante esse "período de abstinência", quando vão ficar "presos"? Que tipo de tratamento será este?

Não sei como estes abrigos estão funcionando agora, mas até 2007, quando eu trabalhava para a Secretaria Municipal de Saúde do Rio, não havia atendimento sistemático de saúde dentro dos abrigos.

A Secretaria de Assistência Social (SMAS), que coordena os abrigos da cidade, não tinha uma boa relação com a rede de CAPS-AD. Os poucos CAPS-AD que atendiam menores, não conseguiam dar conta desta demanda pois, praticamente, não tinham profissionais da saúde que fossem regularmente a esses abrigos. Estes CAPS-AD funcionavam mais no esquema tradicional de assistência, esperando a SMAS, ou outra autoridade, trazer algum menor para o tratamento.

Esses menores, geralmente não aderiam ao tratamento (é claro) e pouco podia ser feito para acompanhá-los, já que os CAPS-AD não tinham pessoal suficiente, e capacitado, para sair às ruas e atender esses menores aonde eles estivessem. Este esquema de atendimento, que é o princípio básico da atenção psicossocial, e da redução de danos, que todos os CAPS-AD deveriam seguir, não estava ocorrendo na prática. Acredito que isso acontecia, principalmente, por falta de recursos humanos e financeiros e pela falta de integração entre a SMS e a SMAS. O que só agravou o descumprimento das diretrizes da política de atenção aos usuários de drogas do Ministério da Saúde, que também, pelo que sei, nunca se interessou em avaliar/monitorar estes programas.

Como disse antes, não sei como a situação está agora. Apesar de ter boa relação com vários profissionais que estão à frente da atenção AD no Rio, não tive informações recentes sobre como, de fato, está a assistência a menores nos CAPS-AD e a integração com os abrigos da SMAS, nesta resposta emergente.

Assim peço a vocês e, principalmente, aos que atuam na cidade do Rio de Janeiro, que investiguem essa situação, divulguem informações, denunciem! E, principalmente, tentem influenciar as decisões deste Comitê, com idéias e projetos inovadores e mais apropriados.

Não podemos deixar que esses menores sejam tratados de forma desumana, só porque os governantes, em mais uma ação "apaga incêndio" (tão comum no Rio), decidiram que a melhor estratégia para acabar com os problemas relacionados ao uso de crack, é "esconder" os menores dependentes dentro de abrigos da prefeitura,

Estou disposta a ajudar no que puder.

Abraços,

Marisa

PS: podem encaminhar amplamente esta mensagem


Destaques da notícia:



"Na reunião do Comitê de Combate ao Crack e à Prostituição Infantil, uma nova linha de atuação da prefeitura, ficou decidido que a atuação da força-tarefa consistirá justamente em fazer com que os abrigos tratem essa população e a mantenha sob custódia."

"detenção forçada em abrigos até o restabelecimento da saúde mental e física"

"– Essa criança não pode escolher ir embora do abrigo porque, por lei, não tem vontade plena: a vontade tem de ir ao encontro dos direitos dela"

"proteção aos direitos de sobrevivência das crianças e dos adolescentes viciados está acima da proteção ao direito de ir e vir."

"O secretário defendeu a experiência de caráter inicialmente experimental adotada em um dos abrigos, onde crianças são mantidas a portas fechadas durante a crise de abstinência, período durante o qual se tornam violentas."

"– Quando a gente considera que já tem condições, a gente incentiva que a criança saia, procure a família, vá a jogos de futebol e volte em horário pré-determinado. Mas enquanto a gente entende que se essa criança sair não vai voltar, ela não vai sair."

1 comments:

Vinicius said...

"Quando a gente considera que já tem condições, a gente incentiva que a criança saia, procure a família, vá a jogos de futebol..."
Realmente o Sr. Secretário oferece um inaudito horizonte para os menorezinhos do coração dele...eu aqui estou vertendo copiosas lágrimas com a patente demonstração de boa vontade do ministério público e governos no tocante a resolução do problema dos pequenos dependentes.
Incrível. Mas essa desorientaçaõ é bem orientada e atende o chavão político: "interesses escusos". No mínimo, quão grande equívoco!

Post a Comment

Subscribe