"A velha e batida lógica de agir contra o efeito e nunca contra causa"

Interessante perspectiva da abordagem dos governantes ao atual problema do crack.

O autor só esqueceu de considerar que os meninos "que se divertem no shopping" não estão assim tão "imunes" ao crack.

Assim como os meninos das favelas, muitos deles são também negligenciados pelos pais. Pais que só se interessam por seus afazeres profissionais e seus "scotchs" no fim do dia. Enquanto seus filhos caminham pelo mundo do consumismo, sem qualquer referência ética, norteados por valores descartáveis e realidades fictícias, emprestados dos filmes, jogos eletrônicos e "reality shows".

Marisa

Artigo publicado no Blog do Noblat em 19 de maio.

O ópio é a religião do povo

O crack é a nossa mais preocupante epidemia. E é uma droga apocalíptica que desencadeia uma série de patologias que criam agudas necroses sociais, inclusive, a mais aguda delas, é a desintegração completa e irreversível das famílias, chegando ao cúmulo de pai matar filho, filho matar mãe, neto matar avô... do jeito que tá na Bíblia.

Há em alguns estados, como em Sergipe e em São Paulo, governos anunciando uma frente para eliminar o crack.

Quero ver quem será o craque que vai fazer tão idiossincrática firula. Vão tirar o crack e trocá-lo pelo quê?

Os caras continuam com a velha e batida lógica de agir contra o efeito e nunca contra causa.

Enquanto os filhos se divertem no shopping, vão ao cinema, se banham na piscina do condomínio e comem na praça de alimentação, os doutores, entre uma dose e outra de scotch, discutem como afastar as drogas das periferias. Mas nunca pensam em como afastar as periferias das drogas. Veja você.

O que ninguém imagina é que os filhos dos que não podem ir ao shopping e patinar numa pista de gelo, que não tem montanha russa e bungee jumping pra descarregar adrenalina - que tem apenas uma poça de lama ou de esgoto a céu aberto como piscina, usam o crack como um lenitivo.

O que os tomadores de scotch não podem esquecer é que até mesmo eles que tem acesso a cargos públicos, e das benesses que vem junto, precisam se drogar com suas doses de scotch ao final do expediente.

O estado se faz presente nas periferias edificando hospitais e delegacias. O diabo é que a maioria das enfermidades são conseqüências dos esgotos a céu aberto, da poeira, da falta de asfalto, da lama, do lixo amontoado de qualquer jeito, da falta de higiene; em uma palavra, da falta de políticas públicas de saúde preventiva. Mas é mais fácil construir um hospital.

Os presos são, na sua esmagadora maioria, gente sem estudo, sem emprego, sem pai ou sem a mãe, sem esperança no futuro, sem apoio de ninguém e sem acesso à droga da felicidade. Mas, é mais fácil construir presídios do que construir políticas culturais, de esporte e lazer.

Os doutores tomadores de scotch se esquecem que quando um jovem senta num beco imundo e traga um cigarro de crack ele, por alguns segundos, passeia em um lindo Shopping Center, desliza na neve, mergulha em uma montanha russa e mata a fome de tudo o que lhe falta. Ali, no beco fétido, o jovem sem amor, sem profissão e sem emprego, sem dente e sem esperança, mitiga a sua dor. E como ele não tem emprego e nem dinheiro para saciar sua diversão, a sociedade é que paga a conta.

Lelê Teles é formado pela Universidade de Brasília. É publicitário, escritor e roteirista. A biblioteca que fica no ponto de ônibus da 514 norte recebe o seu nome. É casado com a jornalista peruana Lena Mitidieri e pai de Giulita. Escreve sobre análise do discurso.

Comments

  1. "Os doutores tomadores de scotch se esquecem que quando um jovem senta num beco imundo e traga um cigarro de crack ele, por alguns segundos, passeia em um lindo Shopping Center, desliza na neve, mergulha em uma montanha russa e mata a fome de tudo o que lhe falta..."

    De onde o autor do artigo tirou isso? Usa-se drogas para outras coisas, talvez bem mais interessantes (e perigosas) que passeios em shoppings ou em neves deslizantes. Não creio que algum usuário arrisque a própria vida atrás de um mundo assim tão artificial. A realidade é mais cruel que esses sonhos infantis e idealizados de quem sabe escrever artigos. Mas, pelo sim, pelo não, as contas sociais se acertam. E quem não deve?

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