Com Marchas da Maconha acontecendo em diversas cidades do mundo, várias sendo proibidas no Brasil e a do Rio se aproximando (prevista para acontecer no próximo domingo), algumas questões têm aparecido com frequência na mídia. Recebi alguma delas por e-mail, de um jornalista, querendo obter o ponto de vista de um médico, especialista em dependência química e anti-proibicionista. Resolvi então, postar aqui as minhas respostas.


Por que a maconha deve ser legalizada?


Não só a maconha, mas todas as outras drogas devem ser retiradas da ilegalidade, do mercado informal e do domínio das quadrilhas do crime organizado. A proibição, nos seus 100 anos de história, não cumpriu sua missão de acabar com as drogas no mundo e nem diminuiu a sua disponibilidade. O acesso às drogas nunca foi tão fácil, e apesar de todos os mecanismos repressivos (e todo o dinheiro gasto com isso, no mundo), o preço no mercado nunca esteve tão baixo. Até mesmo o diretor do escritório para drogas e crime da ONU (UNODC), admitiu recentemente, que o sistema atual gerou, o que ele chamou de dano colateral, indesejado; um mercado ilegal de imensas proporções.Todas as drogas devem ser regulamentadas da mesma forma. Do ponto de vista da saúde, não faz o menor sentido ter drogas totalmente proibidas, que até o uso/porte é considerado crime, enquanto outras, como o álcool, tabaco, benzodiazepínicos, anfetaminas, podem ser adquiridos, com algumas restrições, mas de forma legal.


Qual o risco potencial do uso da maconha?


A maconha, como todas as substâncias, medicamentos, e até mesmo, alimentos, tem efeitos prejudiciais sobre o organismo. Os efeitos e, conseqüentemente, os riscos, são diferentes para cada pessoa, e dependem de uma série de fatores, dentre eles, a quantidade e freqüência em que é consumida, fatores predisponentes (doença mental), idade (para cérebros em formação:criança/adolescente os riscos são maiores). Os estudos, na área, ainda são inconclusivos, assim não é possível afirmar, com 100% de certeza, que há uma relação causal entre o uso da maconha e o desenvolvimento da síndrome amotivacional (apatia, falta de interesse) e de transtornos psicóticos, como a esquizofrenia, por exemplo, mas seriam estes os possíveis riscos mais graves. Além disso, uma série de outras doenças relacionadas ao veículo com que a maconha é consumida, de forma fumada, e às vezes misturada com o tabaco, potencialmente podendo causar todos os males associados ao consumo de cigarro.


Em comparação com o álcool e com o cigarro comum, em que pontos ela é menos prejudicial e em que pontos pode ser mais perigosa?


Comparada a estas duas substâncias, álcool e tabaco, a maconha pode ser considerada a menos prejudicial à saúde. Nesta comparação, o uso da maconha só é mais perigoso, pelos riscos que o usuário corre ao adquirir e portar a droga (todos ligados ao sistema proibicionista, e não à droga em si). Ter que enfentrar a violência do tráfico e da polícia nas bocas de fumo, o risco de ser preso confundido com traficante, levar bala perdida, ser expulso da escola ou de casa, porque descobriram que você usa uma uma droga que é considerada ilícita é, sem dúvida, muito perigoso. Segundo dados da ONU o tabaco mata 5 milhões de pessoas ao ano, o álcool 2,5 milhões e todas as drogas ilícitas juntas, cerca de 200 mil pessoas por ano. Então, a grande questão é: porque, algumas drogas, com tantos danos à saúde já comprovados, como o álcool e o tabaco, têm seu consumo tolerado e outras não?


A legalização não poderia aumentar o número de usuários e, conseqüentemente, o gasto público com seu tratamento?


Essa é uma pergunta para a qual só teremos uma resposta, quando algum país tomar a iniciativa de legalizar as drogas que hoje são consideradas ilícitas em todo o mundo. O que podemos fazer é especular os possíveis resultados/consequências da legalização das drogas através de comparações com o que ocorreu com a proibição e em seguida legalização do álcool nos EUA durante a Lei Secae com as políticas mais flexíveis de descriminalização que vêm sendo implementadas, principalmente na Europa.
Com base nos dados que temos, a implementação de políticas menos proibicionistas, não levou ao aumento do número de usuários e mesmo se ocorreu um aumento transitório no consumo, o número de dependentes, ou usuários problemáticos não se alterou, ou até mesmo sofreu redução. E em termos de gastos para o sistema de saúde, com tratamento, por exemplo, os dados que temos que observar são os do aumento do número de dependentes. Nem todas as pessoas que usam uma droga apresentam problemas relacionados à substância, ou delas se torna dependente. No caso da maconha, menos de 10% das pessoas que a consomem, se tornam dependentes.
Nos EUA, onde o número de usuários é muito maior e muitos milhares são presos somente por uso/porte de maconha, os gastos com processos criminais, ultrapassam, e muito, os gastos com o tratamento dos danos à saúde provocados pela droga, e é esta, uma das razões pela qual muitos estados estão buscando alternativas à proibição e implementando práticas menos repressivas, com bons resultados.
No caso único da Holanda, que resolveu disponibilizar a maconha, com algumas restrições, com a venda em Coffee Shops, um dos principais objetivos, foi evitar que os usuários de maconha (que são a grande maioria de consumidores de drogas consideradas ilícitas) tivessem contato com o mercado ilegal e todos os riscos inerentes a ele, principalmente o da oferta de outras drogas que consideram mais pesadas, como a cocaína e a heroína, que geram muito mais danos à saúde. Hoje, já com cerca de 30 anos de experiência desta iniciativa, os políticos e governantes não querem voltar atrás e retomar às medidas proibicionistas, mesmo sofrendo (ou talvez, melhor, lucrando) as consequências de um crescente turismo de drogas, que todos os fins de semana leva milhares de europeus, principalmente belgas e alemães, às suas cidades, para frequentar os Coffee Shops.

1 comments:

Anonymous said...

Parabéns pela reportagem, ficou muito esclarecedora para o público que pode começar a ter uma nova visão do perigoso "mundo das drogas"!
Beijo grande!
Tathi

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