Tendências e Debates

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Senhor Redator

O artigo “Ciência Viciada”, em minha opinião, é lamentável. Escrevi uma resposta ao mesmo, por ter sido o CEBRID citado de maneira desairosa.

Não sei se é possível a publicação de meus comentários mesmo que fosse no “Painel do Leitor”.

Em anexo envio o meu curriculum vitae resumido como aparece em publicação do INCB (International Narcotics Control Board) da ONU, no qual servi como membro titular, eleito pela comunidade científica mundial, por cinco anos.

Atenciosamente

E.A.Carlini

Diretor do CEBRID

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“Ciência Viciada” ou palpite infeliz.

E.A.Carlini

Na edição de 23/03/2009 da FSP, a pagina 3 – Tendências e Debates, o jornalista e sociólogo José Maria e Silva assina artigo que causa indignação e revolta pela linguagem indelicada e conteúdo inexato ou inverídico.

A frase de G. Bernard Shaw “quem sabe faz; quem não sabe ensina”, se aplica bem no caso. Tenta o jornalista-sociólogo, muito pouco sabendo sobre o tema que escreveu, confundir o leitor com falsas e maldosas afirmações em uma triste tentativa de fazer prevalecer sua ideologia e seu moralismo anacrônicos.

Pois ao tratar de descriminalização e de legalização como se fossem a mesma coisa deixa patente os eu desconhecimento e, pior, confunde o leitor.

Diz ainda o jornalista que as leis brasileiras atuais sobre drogas “nasceram de uma tese hegemônica nos meios acadêmicos: política de redução de anos – eufemismo com que intelectuais universitários disfarçam sua apologia ao uso de drogas”. Mas que horror! Será que as palavras: do National Institute on Drug Abuse – EUA (NIDA) “Embora um estado livre de drogas seja objetivo ideal de tratamento, as pesquisas mostram que este estado não pode ser atingido pela maioria dos pacientes. Todavia, outros objetivos importantes de um tratamento podem ser atingidos, tais como diminuição do uso de drogas, diminuição de atividade criminosa e restabelecimento de emprego, como acontece com a maioria dos pacientes sob metadona”; de órgãos ligados à Organização das Nações Unidas – UNDCP/UNODC “A redução de danos é neutra em relação à sabedoria e à moralidade do uso continuado de drogas, e não deveria ser vista como sinônimo de movimentos que procuram descriminalizar, legalizar ou promover o uso de drogas”; e INCB. “O INCB, portanto não se opõe à redução de danos, dado ser ela parte do tratamento médico e uma estratégia coerente de redução da demanda(...)”; da delegação da União Européia na recente reunião da Comissão de Drogas Narcóticas da ONU (favorável à inclusão de Redução de Danos na agenda da ONU nos próximos 10 anos); e as de muitos outros países e instituições por exemplo Governo da Suíça:” intervenções de Redução de Danos são aquelas planejadas para atingir as pessoas dependentes que não poderiam ser contatadas de outra maneira.Por exemplo, os programas de troca de agulhas e as salas de injeções são algumas vezes planejadas com o objetivo adicional de se chegar até os dependentes fim de linha (hardcore abusers) para motivá-los a iniciar tratamentos”. Estas palavras, não são levadas em conta pelo autor do artigo? Ou são consideradas entulho ideológico? A título de melhor esclarecer o leitor damos abaixo uma definição honesta do que é redução de danos: !Redução de danos refere-se a políticas ou programas que visam diretamente a reduzir o dano resultante do uso de álcool ou outras drogas, tanto para o indivíduo como para a sociedade. O termo é usado particularmente para programas que visam a reduzir o dano sem necessariamente exigir abstinência” (UNDCP/UNODC).

Acusa o CEBRID (Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas) da Universidade Federal de São Paulo de subscrever a “Declaração dos Direitos dos Usuários de Drogas” sendo esta “um entulho ideológico de Maio de 68”. O CEBRID, nos seus mais de 30 anos de contínua existência, reconhecido como Centro de Excelência pela OMS (Organização Mundial da Saúde) e pelo Governo Brasileiro, tem por norma acolher nos seus boletins trimestrais as mais diferentes opiniões sobre drogas, visando discutir ampla e publicamente o tema sobre drogas. E o CEBRID faz, sim, ciência de ponta; é só acessar o nosso site pata constatar as dezenas de artigos científicos publicados em importantes revistas cientificas do Exterior e do Brasil.

Comete ainda o jornalista uma declaração inverídica ao atribuir ao Ministério da Saúde um texto sobre o Crack onde é dito que o crack produz vários efeitos agradáveis; entre os quais “um prazer que muitos comparam ao orgasmo”. Tais dizeres são do próprio CEBRID em um folheto, onde é descrita a fissura por esta droga e todos os malefícios resultantes do seu uso.

Ora, dizer toda a verdade é a maneira seguida por muitos de que a verdade total deve ser apontada. O contrário, somente a meia verdade, levou ao descrédito das mensagens educativas sobre drogas. É o que se chamou no passado de “pedagogia do terror” fazendo com que os programas fracassassem.

O livreto do CEBRID sobre drogas, abordando 15 diferentes drogas, foi aprovado pela UNDCP (United Nations Drug Control Program – ONU), COFEN (ex-Conselho Federal de Entorpecentes), SENAD (Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República) e Secretaria da Educação do Estado de São Paulo. Foi também adotado pelo MAPS do Governo do Estado de Massachusetts dos EUA.

Para conhecimento do público é bom que no folheto em pauta são também comentados os seguintes outros efeitos do crack: excitação, hiperatividade, insônia, muita perda de peso, cansaço, intensa depressão, irritabilidade, comportamento violento, tremores, atitudes bizarras, paranóia, alucinações e delírios e com o uso continuo perda do interesse sexual. E ainda “visão borrada, dor pré-cordial, hipertensão, taquicardia, contrações musculares, rabdomiólise, convulsões e até coma e morte.

O CEBRID está convicto de que ao ser mostrado ao jovem porque se usa (por prazer) e as conseqüências maléficas deste uso, ele terá melhores condições para fazer escolha acertada.

Ainda o jornalista ignora que a dependência de droga PE definida como uma doença pela OMS, devendo o dependente ser tratado com consideração e respeito; ao contrário ele diz ser “o drogado – useiro e vezeiro em escarnecer da lei, da pátria e da família”, uma visão anacrônica de meio século atrás.

Finalmente, como Sociólogo, o jornalista deveria conhecer o lema de Claude Bernard, o grande cientista da medicina experimental: “Em ciência criticar não é sinônimo de denegrir”. Infelizmente, tal lema não foi seguido no artigo acima referido, e em nada engrandeceu o debate sobre este tópico tão importante.

São Paulo – 24/03/2009

E.A.Carlini

Diretor do CEBRID

Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas

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