Drogas: tempos de violência e de culpas

E a discussão sobre "de quem é a culpa" continua...

JB online - 29/03/2009

RIO - A responsabilidade de quem compra drogas ilícitas com o problema de violência do tráfico voltou a ser comentada na semana passada por duas personalidades públicas diametralmente opostas, mas com análises parecidas sobre o problema do consumo ilegal.

Na mesma terça-feira, o secretário de Segurança Pública do estado do Rio, José Mariano Beltrame, quanto a americana Hillary Clinton, secretária de Estado do governo Barack Obama, defenderam a visão de que o usuário de drogas ilegais contribui para o financiamento do tráfico armado e, consequentemente, para o aumento da violência.

Longe de uma resposta conclusiva, o debate é levantado vez por outra, sempre que confrontos entre facções rivais de traficantes se enfrentam. No Rio de Janeiro, o gancho que fez a polêmica voltar foi o ataque de bandidos da Rocinha aos seus adversários na Ladeira dos Tabajaras, em Copacabana.

Por três longos dias, moradores de áreas nobres, como Humaitá, Copacabana e Fonte da Saudade, da Lagoa, experimentaram o pânico que muitas comunidades carentes já enfrentam: o de se ver no epicentro de uma guerra territorial por pontos-de-venda de drogas.

No outro hemisfério, Hillary Clinton declarou que “a insaciável demanda americana por drogas ilícitas” era a culpada pelo que ocorria no norte do México.

– Nossa falta de habilidade em evitar o contrabando de armas através da fronteira causa a morte de agentes da polícia, de soldados e de civis. Sinto muito que sejamos corresponsáveis – afirmou a secretária, no mesmo dia em que os Estados Unidos anunciaram um investimento de US$ 700 milhões para combater as ações criminosas na fronteira com o vizinho latino.

Fica impossível negar que há uma relação entre consumo e o financiamento da corrida bélica do tráfico diante de apreensões feitas pela Polícia Militar, como a da foto que ilustra esta página, na favela da Maré. Só na última sexta-feira, os soldados encontraram em três operações diferentes armamento pesado, como um fuzil do Exército boliviano e uma granada capaz de explodir o blindado do Bope conhecido como Caveirão.

– É evidente que o dinheiro dos usuários financia o tráfico. Mas isso só acontece por causa da proibição – afirma Renato Cinco, sociólogo e um dos organizadores da Marcha da Maconha, que vai acontecer no próximo dia 9 de maio. – O problema é que a violência é um resultado da proibição, e não do consumo.

A corrente pela descriminalização das drogas conquistou novos adeptos neste ano. Em fevereiro, o ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso estava entre os líderes da Comissão Latino-Americana sobre drogas e democracia, ao lado de outros ex-presidentes de países assolados pela violência do tráfico: Cesar Gaviria, da Colômbia, e Ernesto Zedillo, do já citado México. Num relatório, a comissão pediu à ONU, em conferência mundial sobre o combate às drogas, que fosse revisada a política mundial, que tende à proibição.

Culpas

Como não houve retrocesso na posição de criminalizar as substâncias, continua em pauta a questão das responsabilidades sociais – tanto dos governos, na repressão da atividade ilegal, quanto dos usuários, em relação à atração que a demanda por drogas exerce sobre os criminosos. Principalmente no Rio.

Permanece assim a dúvida sobre por onde seguir nessa encruzilhada, que acumula anos de omissão de políticas de estado das mais variadas. Nestas páginas, tanto quem defende a repressão, representado pelo deputado federal e ex-secretário de Segurança fluminense, Marcelo Itagiba (que pertence ao PMDB do atual governador, Sérgio Cabral), quanto quem apoia a legalização, como o deputado federal Fernando Gabeira (PV-RJ) e o sociólogo Cinco, concordam: o processo vem de longa data, e é resultado de negligências na habitação, da segurança e da educação. O JB cumpre seu papel de mediar o debate, enquanto for necessário e urgente.

22:17 - 29/03/2009

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